Share Button

Por g1

Alberto Chebabo, novo presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia | Foto: Arquivo Pessoal

Continuar informando a população com base em evidências científicas. Essa é uma das missões do novo presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Alberto Chebabo, que assume o posto nesta quinta-feira (13). O infectologista ficará à frente da SBI nos próximos dois anos e falou ao g1 sobre as prioridades da entidade, autoteste, vacinação infantil, fim da pandemia e fake news.

Fonte de informação confiável

Para Chebabo, a pandemia vem mudando a cada onda. Primeiro, a onda de muitas mortes. Depois, veio a delta, com a população parcialmente vacinada. Agora, a explosão de casos com a ômicron. A prioridade da SBI é continuar informando a população com dados baseados na ciência, e também atualizar as medidas, frente às mudanças de perfil da pandemia.

“A pandemia que vivemos hoje é completamente diferente de 2020 e 2021. Obviamente, as recomendações vão mudando, como a redução de tempo de isolamento. Teremos que aprender a conviver com o vírus, conforme ele vai se apresentando”, diz Chebabo.

Ele também lembrou que, nos próximos dois anos, a SBI vai voltar a informar sobre outras doenças infecciosas que ficaram “esquecidas” durante esse tempo de Covid-19. “Temos que nos reposicionar sobre outras doenças em relação às quais sempre tivemos atuação, como HIV, hepatite, arboviroses [dengue, chikungunya]. Essas doenças ficaram de lado e agora vemos o retorno delas. Estamos esperando um aumento no número de casos de arboviroses”, completa Chebabo.

O combate à desinformação

Durante a pandemia, além do vírus, os especialistas precisam lidar com a desinformação. As chamadas “fake news” se proliferam rapidamente e as sociedades científicas estão a todo momento desmentindo os negacionistas.

“É sempre muito cansativo. Como conseguem inventar teorias tão absurdas e as pessoas acreditarem? Por outro lado, olha tudo o que conseguimos nesse período de pandemia. Mesmo com fake news, vemos uma adesão da população à vacinação de forma importante. Vimos também a adesão de adolescentes, quando houve esse ataque muito maior em relação à vacina, a população aderindo”, diz o infectologista.

Ele lembra que o chamado “tratamento precoce”, que usa medicamentos ineficazes contra a Covid-19, já ficou para trás.

“Teve um momento em que as pessoas acreditaram, usaram, mas agora ninguém mais fala em cloroquina, ivermectina. O tempo é capaz de separar o que é ruim, o que é lixo, o que não presta, do discurso baseado na ciência. A população não é idiota, ela entende” – Alberto Chebabo.
Para o infectologista, apesar de cansativo, o combate à desinformação vale a pena.

“Todas as pandemias tiveram fake news, mas no final lembramos daqueles que trilharam o caminho da ciência. No final das contas, a história faz o papel dela: separa os vendedores de ilusões de quem realmente está trilhando o caminho correto”.

Vacinação das crianças

Infectologistas da SBI estiveram presentes na audiência pública convocada pelo Ministério da Saúde na última semana para discutir a vacinação infantil. Chebabo reforça que a entidade é a favor da imunização das crianças e que o trabalho em informar segue em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

“Qualquer processo de vacinação e combate a uma doença imunoprevenível é um processo de proteção coletiva. Quanto maior o número de vacinados, melhor é a resposta em termos de controle de epidemia, da doença. Quanto mais ampliarmos o número de pessoas imunes e vacinadas, menor será o espaço de circulação do vírus”, explica o infectologista.

Apesar de o número de óbitos na população infantil parecer “pequeno” (menos de 400), ele lembra que são crianças que poderiam estar vivas. “Dizem ‘são poucas crianças’, mas se for seu filho, é 100%. Sabemos que a vacina, além de reduzir mortalidade, reduz também outros eventos deletérios, Covid longa, alterações do sistema nervoso central, desenvolvimento, internações, traumas para as crianças. A vacina é segura, já está bem demonstrado de que não há riscos. A doença é muito mais grave do que qualquer evento adverso que a vacina possa causar”, completa.

“Transformamos a história natural da Covid-19 com a vacina. Transformamos uma doença que era altamente letal, com uma taxa de letalidade importante, para uma doença cujo risco de morte é muito mais baixo em pessoas que se vacinaram corretamente”, destaca Chebabo.

Fim da pandemia?

O médico diz que é muito difícil fazer previsões sobre o fim da pandemia. Ainda veremos os impactos da Covid-19 na saúde nos próximos anos (sequelas da Covid longa, por exemplo). Além disso, muitos países seguem com cobertura vacinal baixa, o que aumenta o risco de novas variantes. No entanto, a tendência é que, daqui para a frente, vejamos ondas menos severas da doença.

“Desde o inicio, falamos que os impactos dessa pandemia iriam durar em torno de 2 até 5 anos. Mas a tendência é que, com essa quantidade de pessoas vacinadas e infectadas, a gente transforme a forma como a doença se apresenta, sendo mais leve. Teremos um menor impacto, mais social e não com óbitos. Essa é a esperança que a gente tem”, explica o presidente da SBI.

Autotestes no Brasil

O Brasil está entre os países que menos testam no mundo. Para Chebabo, antes de pensar em autoteste, o país precisava ter uma política de testagem ampla, com o apoio do Ministério da Saúde.

“O autoteste é uma ferramenta que ajuda na questão do acompanhamento. A pessoa pode fazer o teste para saber se ainda está positiva, mas principalmente na prevenção. Ela pode se testar para poder evitar a transmissão. Mas vivemos em um país continental, com desigualdade muito grande e achar que o autoteste vai resolver o problema da pandemia no Brasil é não conhecer o país em que vivemos”, alerta.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisa aprovar a liberação do autoteste no país, mas algumas perguntas precisam ser respondidas, na opinião de Chebabo: ele será gratuito? Será acessível? Ou só resolverá o problema da população de classes média e alta?

“Estamos usando o autoteste como se ele fosse resolver o problema de testagem no Brasil. Mas antes precisamos ter o acesso. Usamos pouco a rede básica de saúde, principalmente para a testagem. O Ministério da Saúde deveria comprar testes, implementar nos municípios. Esse foi o nosso grande erro, não investir numa estrutura de testagem ampliada, utilizando as UBSs e criando centros de testagem em algumas situações. É muito mais um problema de falta de investimento nos testes do que em estrutura”, aponta.